Às vezes dou por mim a pensar se fomos todos coletivamente enganados. Desde miúdos que nos vendem a mesma cassete: estuda, arranja um bom emprego, trabalha 8 a 10 horas por dia, paga contas, sobrevive ao trânsito e, se tiveres sorte, aproveita os dois dias do fim de semana para tentar recuperar a sanidade mental antes que o ciclo recomece na segunda-feira.
Isto não é viver, é andar em piloto automático.
A sociedade atual transformou o trabalho na nossa identidade. A primeira pergunta que te fazem quando conheces alguém é "o que é que fazes?", como se o teu valor no mundo dependesse do cargo que tens numa empresa que, se tu morreres amanhã, te substitui na semana seguinte. Estamos sempre cansados, sempre a correr atrás de prazos, de metas e de um ordenado que parece que encolhe a cada mês que passa.
Criámos um sistema onde passamos os melhores anos das nossas vidas, com mais energia e saúde, fechados em escritórios ou fábricas, a enriquecer terceiros, para guardarmos a "liberdade" para quando formos velhos. Não faz sentido nenhum.
Não tenho respostas nem soluções milagrosas. Só sinto um cansaço absurdo desta cultura do hustle, de ter de estar sempre produtivo e de sentir culpa quando não estou a fazer nada. Só queria tempo. Tempo para respirar, para estar com quem gosto, para ver o dia a passar sem a ansiedade do relógio.
Será que sou mesmo eu que estou desalinhado, ou é o mundo que ficou completamente louco?