Ó manos, ide-vos f-der,
vocês e as guerras de gabinete.
Uma vida inteira a sofrer
pra acabar a chorar na retrete.
Desde que me conheço, sou Boavista,
e pouco mais anos tenho de idade:
não foi escolha nem conquista,
nasci assim, e é verdade.
Nunca fui homem de igreja,
Deus que me perdoe, carago:
a minha missa era a cerveja
e o Bessa era o meu altar sagrado.
Domingo às três, de ressaca,
com o sábado ainda a ferver,
chegava tarde, feito em caca,
mas ia ao Bessa, nem que fosse a morrer.
Que saudade do fedor
a mijo, tabaco e bifana,
do fino choco, do calor,
e de mandar à fava o árbitro sacana.
Desci com ele ao inferno,
anos de lama e humilhação,
e lá tava eu, verão e inverno,
que isto não é clube, é condição.
Direção atrás de direção,
comunicado contra comunicado,
lambe-botas, claque de ocasião,
e o sócio no sofá, sentado.
Cento e cinquenta milhões de buraco,
insolvência, leilão e tribunal;
cortaram a luz, o Bessa feito um caco,
e estranhos a mandar no nosso quintal.
O Bessa FECHADO, que raio:
ninguém entra, só a saudade.
Há mais de um ano, desde maio,
e parece uma eternidade.
Imagino-o às escuras, vazio,
as cadeiras a apanhar pó,
um silêncio que mete frio
onde eu nunca estive só.
Ide-vos fod-r, todos, com jeito,
que eu sou do Porto e educado:
levem as guerras no peito
e devolvam-me o Bessa e o passado.
Viva o Boavista Futebol Clube.